A Meta pretendia expulsar do WhatsApp os chatbots de inteligência artificial, o que faria ChatGPT (OpenAI) e Copilot (Microsoft) deixarem de funcionar na semana passada. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) suspendeu a decisão no Brasil e abriu uma investigação contra a empresa de Mark Zuckerberg. A suspeita é que a big tech esteja abusando de sua posição dominante para favorecer a Meta AI, seu próprio serviço de IA.
Esta é, pelo menos, a quarta vez nos últimos anos que autoridades brasileiras barram antes da decolagem ou em pleno voo algum serviço crucial da Meta por identificarem algum problema. Desta vez, o terreno em disputa é a IA, e o Brasil virou um importante front de batalha

Anunciada em outubro do ano passado, a mudança da Meta programada para o WhatsApp assustou muita gente, porque:
A proposta era barrar desenvolvedores de chatbots baseados em IA que oferecessem seus serviços diretamente pelo aplicativo de mensagens. No entanto…
… muitas empresas que utilizam inteligência artificial para atender clientes pelo WhatsApp entenderam que a mensagem era direcionada a elas. Não era o caso, pois…
… a medida, de alcance global, afetaria um grupo bastante restrito, formado por menos de dez companhias responsáveis por serviços como ChatGPT ou Copilot — ferramentas voltadas para responder perguntas e executar tarefas gerais, e não para atender demandas específicas de empresas. Portanto, nada a ver com os chatbots de Latam ou Itaú, que usam IA para tratar questões relacionadas aos seus próprios produtos e serviços. Mesmo assim…
… a equipe comercial da Meta precisou agir para esclarecer a situação e acalmar os que não seriam impactados. Já o pequeno grupo realmente atingido entendeu o aviso. A OpenAI, por exemplo, anunciou que o ChatGPT deixaria de funcionar no WhatsApp, mas…
… isso pouco a afeta, já que sua plataforma própria está entre as mais acessadas no Brasil e no mundo. Outras empresas, porém, estruturaram seus negócios inteiramente dentro do aplicativo da Meta, como a espanhola Luzia e a uruguaia Zapia. Ambas afirmaram à Radar Big Tech que buscaram diálogo com a Meta, mas não obtiveram retorno satisfatório.
A empresa tem pouca dependência do aplicativo de mensagens, uma vez que sua própria plataforma já figura entre as mais acessadas do Brasil e do mundo. Outras companhias, porém, estruturaram suas operações inteiramente dentro do ambiente da Meta, como a espanhola Luzia e a uruguaia Zapia. Segundo relataram à Radar Big Tech, ambas tentaram contato com a Meta para tratar do assunto, mas não obtiveram retorno.
“O surgimento de chatbots de IA na Plataforma do WhatsApp Business sobrecarrega nossos sistemas, que não foram projetados para esse tipo de suporte”
Nós brasileiros nos habituamos a fazer tudo pelo WhatsApp, incluindo usar a IA. A Meta sabe disso. Não à toa, começou pelo aplicativo a implantação no Brasil de seu Meta AI. Só depois, ele chegou ao Instagram por aqui, nos EUA, foi o contrário.
Antes dele, outros chatbots de IA já funcionavam no WhatsApp, com uma conta Business. Por ser feito pela dona do app, o Meta AI foi transformado em parte integral da plataforma —o botão azul está na barra de pesquisa, paira sobre as conversas e é ele mesmo uma conta.
Nos países onde o veto da Meta passou a valer -todos os outros, menos Itália e Brasil-, o Meta AI reina absoluto. Como as pessoas cada vez mais usam chatbots de IA para se informar, isso pode significar enfrentar um filtro intransponível e bem opaco para acessar informação. Quer ver?
Perguntei a todos os chatbots de IA no WhatsApp quais seriam os serviços rivais disponíveis no app e as formas de acessá-los. Com diferentes graus de detalhamento, ChatGPT, Copilot, Zapia e Luzia exibiram alternativas e informaram os números correspondentes. Já a Meta AI:
- – Omitiu a existência de ChatGPT e Copilot,
– Disse que Zapia e Luzia sairão do ar no dia 15/01,
– Não informou os números de telefone para acessar nenhum dos serviços,
– E ainda afirmou não haver número de telefone para o ChatGPT.
Já do ponto de vista das empresas, oferecer um chatbot no WhatsApp é um movimento natural, dada a forte presença do app na população brasileira. Algumas delas, aliás, desenvolveram seus negócios com base nessa premissa e com apoio da própria Meta.
“A decisão de banir a Luzia e todos os outros assistentes de IA generativa foi tomada de forma unilateral e vai contra a postura adotada por eles [Meta] nos últimos anos, nos quais incentivaram ativamente a nós e a outras empresas a criar produtos que operassem no WhatsApp.”
Álvaro Martinez, CEO da Luzia
Os brasileiros são mais da metade dos 85 milhões de usuários da Luzia no mundo. O Zapia é usado por 6 milhões de pessoas, a maioria no Brasil, Colômbia, Argentina e México. Ainda que tenham apps e sites próprios, essas empresas têm no WhatsApp sua principal porta de entrada. Segundo Martínez, isso ocorre em “mercados onde as pessoas baixam menos aplicativos e usam menos interfaces na web.
“Para muitos usuários, experimentar uma IA pela primeira vez significou ‘escrever para um contato no WhatsApp.”
Álvaro Martinez, CEO da Luzia
Para a Meta, “essa lógica parte do pressuposto de que o WhatsApp seria, de alguma forma, uma loja de aplicativos”.
O buraco é mais embaixo. Ao Cade, Luzia e Zapia tocam em um ponto caro a reguladores antitruste e difícil de contornar para a Meta: a noção de mercado relevante. Elas argumentam que, no mercado brasileiro de serviços de mensagens instantâneas, o WhatsApp é dominante —algo indiscutível— e que a Meta usa essa posição para dominar outro segmento, o de serviços e soluções de IA —algo aberto a debates.
Uma visão bem estreita do conceito de mercado relevante para redes sociais foi usado pela Justiça norte-americana para condenar a Meta por monopólio. Aqui no Brasil, o desdobramento do caso pode selar o destino de um forte canal de acesso à IA, e de algumas empresas


