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Gargalo na liberação de vacinas contra clostridiose pressiona pecuária no Brasil

Mais de 600 animais mortos por irregularidade em vacina no Nordeste

Mais de 600 animais mortos por irregularidade em vacina no Nordeste

Desde que o Brasil conquistou o status de país livre de febre aftosa sem vacinação, a dinâmica sanitária no campo mudou.

No entanto, mais do que uma questão de rotina nas fazendas, um novo problema vem ganhando força nos bastidores: a dificuldade na liberação de vacinas, especialmente contra clostridioses.

Atualmente, o principal entrave não está na produção dos imunizantes, mas sim no processo de validação dos lotes. Embora os laboratórios mantenham a fabricação ativa e estoques disponíveis, os produtos enfrentam demora para aprovação junto ao MAPA.

Como resultado, forma-se uma fila de análise que retarda a chegada das vacinas ao mercado. Na prática, isso gera um descompasso entre oferta e demanda, criando períodos de escassez mesmo com a produção em andamento.


Menos empresas e mais pressão sobre o sistema

Ao mesmo tempo, o número de fabricantes de vacinas veterinárias no Brasil caiu drasticamente nas últimas décadas. Se nos anos 2000 mais de 16 laboratórios atuavam nesse mercado, hoje menos de 7 seguem em operação.

Esse movimento concentrou ainda mais a demanda em poucas empresas, o que aumenta a pressão sobre o sistema de aprovação de lotes.

Nos últimos anos, mudanças estruturais também impactaram o setor. A MSD Saúde Animal transferiu sua unidade de Montes Claros (MG) para o Uruguai. Já a Dechra encerrou suas atividades em Londrina (PR) após problemas envolvendo um lote de vacina.

Desde então, agentes do setor relatam que o nível de exigência nos testes aumentou — o que, por um lado, reforça a segurança, mas por outro contribui diretamente para o aumento no tempo de liberação dos imunizantes.


Validação rigorosa e impacto no mercado

Empresas como Vaxxinova e Virbac continuam produzindo normalmente. No entanto, todos os lotes precisam passar por análises laboratoriais criteriosas antes de serem liberados para comercialização.

Além disso, mesmo vacinas importadas — como as da própria MSD — não escapam do processo. Ao entrarem no Brasil, elas também precisam passar por revalidação pelo MAPA, o que amplia ainda mais o tempo até chegarem ao produtor.

Na prática, o setor enfrenta um cenário paradoxal:
há produção, há demanda, mas o produto não chega ao mercado na velocidade necessária.


Clostridiose continua como ameaça silenciosa

Enquanto isso, as clostridioses seguem presentes no ambiente. Esse grupo de doenças, causado por bactérias do gênero Clostridium, inclui enfermidades graves como tétano, botulismo, enterotoxemias e gangrena gasosa.

Essas doenças se caracterizam pela rápida evolução e alto índice de mortalidade, o que aumenta a dependência por vacinação preventiva — justamente no momento em que o mercado enfrenta dificuldades de abastecimento.


Um problema sistêmico

Diante desse cenário, especialistas apontam que o desafio atual é estrutural. O rigor na validação dos lotes é essencial para garantir a segurança sanitária. No entanto, a capacidade operacional e o tempo de resposta do sistema regulatório passaram a impactar diretamente a disponibilidade de imunizantes no país.

Assim, o debate deixa de ser apenas produtivo ou sanitário e passa a envolver eficiência regulatória. Sem ajustes no fluxo de aprovação, a tendência é que o descompasso entre produção e disponibilidade continue pressionando a pecuária brasileira.

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